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janeiro 2014

Textos

Erosão

Quando anunciei a partida, você aceitou sem pestanejar. Sem insistir para que eu ficasse um pouco mais. Sem implorar por mais cinco minutos… Você só disse “tudo bem” e me acompanhou até a porta. Abriu-a para mim e me viu sair. Escorri pelos seus dedos e você apenas observou.

Parasse em frente a saída e não me deixasse ir. Gritasse que não. Agarrasse o meu braço e dissesse: “Não, seu lugar é aqui”. Trouxesse o meu corpo para dentro de um abraço-cadeado. Ou, ao menos, me desse um beijo de despedida capaz de me fazer mudar de ideia…

Mas você permitiu que eu fosse. Não relutou. Não chorou. Não questionou. Não se impôs entre meus passos ante a porta. Não perguntou se eu queria companhia. Apenas deu passagem para que eu seguisse o meu caminho e sequer acenou um adeus.

Então, eu fui. Sob a sua espécie de bênção, eu simplesmente fui. Talvez você pensasse que fosse um blefe. Ou que eu voltaria logo. Ou, quiçá, estivesse tão cansado quanto eu para insistir… Para ficar. E, sabe de uma coisa? Acho que se fosse o contrário, eu também não te impediria.

O que resta, então? Poças de nós dois, buscando uma nova foz, desimpedidos. Vítimas e agentes de erosão do e no outro. Quando estivermos distantes, veremos a paisagem que resultou. Mas, por ora, somos apenas um buraco no solo, destoando a beleza natural.

Textos

Os favoritos da Cerejeira

É difícil definir, mas eu tenho os meus textos favoritos aqui. Na falta de tempo em escrever algo novo, pensei em dividir com vocês os rabiscos que mais gosto – não necessariamente nesta ordem.

Vamos lá!

Chinelos 

Fazendo uma limpa no armário ontem encontrei seu par de chinelos. É, aqueles azuis parecidos com os meus. Nem me lembrava mais deles e, agora que os vejo, todas as memórias da gente vieram à tona… Como se eles fossem um gatilho para o baú de lembranças enterradas.

Olha pra Ela

Aproveita o agora e olha bem pra ela, rapaz. Guarda com carinho os detalhes que mais te agradam, porque eles vão desaparecer. Ela vai mudar. Vai se transformar a noite, enquanto você não vê. E eu não sei dizer se você vai gostar dela depois que a metamorfose terminar.

Silêncio dos Inocentes

O corpo não queria mais. Os lábios queriam ficar soltos ao invés de grudados aos seus. Não é só a morte que separa. Há outros fatores que enterram precocemente a vida em conjunto. Nós fomos mais um par de vítimas desses capangas. Acredite: Te amei até o último adeus e além. Eu só não queria mais estar ali.

Pra você me entender

Aos poucos vou te entregando as minhas verdades. O meu lado não tão bonito. A minha face oculta. Aquela parte que lutamos com todas as forças para esconder e deixar cair no esquecimento – se é que isso é possível. Vou te confessando os meus pecados como se você fosse o responsável por me dar o perdão de que preciso.

Café Preto

Olhei ao redor e o resto do apartamento ainda mostrava você, mesmo na sua ausência. O sofá, que você tanto insistiu para ficar de frente para a janela, continuava lá. A cama vestia o jogo de lençóis que você escolheu. E minhas roupas continuavam ocupando só o lado esquerdo e as duas gavetas de baixo.

 

Fica

Esquece os outros compromissos. E, se tiver outro lugar para ir, me leva junto. Vamos chegar de mãos dadas e sentar lado a lado. Vamos ficar nos olhando com aquele olhar bobo e ficar vermelhos. Em seguida, me beija na bochecha e me vê sorrir encabulada. Me vê sorrir com os olhos. Me vê sorrir com você.

Não Goste de Mim

Vou reforçar esse aviso quantas vezes for necessário para que não haja nenhum tipo de ilusão ou expectativa. E, a cada anúncio, sentirei o gelo do coração subindo pelo meu peito. Acho que a frieza é a forma de me cuidar agora. (…) Eu não posso gostar ainda. De você, nem de ninguém. Então, não goste de mim, porque sentimentos são duradouros e eu não vim para ficar.

Tá Tudo bem

Menina, olhe-se no espelho como se fosse a primeira vez. Esquece todos os defeitos que você se atribuiu. Deixa pra lá todos os conceitos que você tinha de si mesma e se veja como realmente é. Permita-se esse encontro. E, ó… Tá tudo bem se achar bonita. Já notou que seus olhos tem um fundo esverdeado? Já reparou como seu sorriso é cativante?

 

 

 

Sinais 

Diz que eu não tô ficando maluca. Diz que aquele olhar que te permitiu ver minha alma não foi fruto da minha imaginação. Diz que eu vejo esses sinais porque eles existem, e não porque eu quero que estejam lá. Me diz alguma coisa, porque não sei mais se dá pra confiar na minha cabeça. Eu tô no escuro.

Caixa de Memórias

Em silêncio, te dediquei sonhos, canções, pensamentos. Foram lindos – só para você saber – mas os guardarei para mim, no cantinho dos outros amores gastos. Talvez um dia, quando a caixa com as memórias de você estiver empoeirada, eu consiga revê-las sem sentir o frio na barriga. Sem as pernas tremerem. Sem o coração ficar pequeno.

Textos

Muralhas

Peguei uma marreta e pus abaixo a muralha dos meus valores e conceitos. Aquela fortaleza não existe mais. Foi doído, mas necessário. Cada pancada era um novo modo de ver o mundo. Os buracos se tornaram janelas, até não haver mais nenhum obstáculo. Até tudo ter virado pó.

Antes, eu não permitia que os impuros chegassem. Que os culpados sequer se aproximassem. Até que me vi num patamar igualmente pecador. Cansei da hipocrisia e derrubei os tijolos, um a um. E meu castelo agora está acessível ao que for. A quem chegar.

É uma manobra arriscada, eu sei. Mas, aos poucos, conforme as idas e vindas forem acontecendo, saberei definir quem eu quero dentro e quem deverá ser banido para sempre. E assim uma nova brigada se forma. Mais baixa e com mais pontes, mas ainda assim, defensiva. E, mais importante, sob o meu comando.

Agora, eu quem decido como será a construção. Eu que ditarei as ordens enquanto o novo muro é erguido. 

Eu sou o senhor do meu destino. Eu sou o capitão da minha alma“.

Eu. E ninguém mais.

Textos

Saudade é…

Amor não acaba nem morre.
Vira saudade.
Saudade é aquele eterno “querer e não poder”.
É o “E se…?” que permanece na cabeça tempos depois de ela ter ido embora.
Saudade é aquilo que não dá pra definir se é dor ou conforto
É aquele espaço no coração que ainda ama os velhos hábitos.
Saudade é a aliada do apego.
É aquele abraço longo que não deixa ele ir de uma vez por todas.
Saudade não é a ausência, mas a falta.
É aquele rosto que não pode mais ser tocado.
Saudade é aquele perfume impregnado, 
mesmo sem senti-lo há anos.
Saudade é uma porta a um passado bom
quando o presente já não supre mais as expectativas.
Saudade é…
quando as palavras acabam,
mas o pensamento se perpetua.
Saudade é ruim, mas é bom.
É uma contradição
É o coração se curando e mantendo a ferida.
Saudade é universal, 
mas de cada um.
Saudade é aquilo que não morre nem acaba.
Vira amor eterno.
Textos

Ressucitado

Tá vendo esse sorriso que ela sustenta, rapaz? Tem o seu nome nas entrelinhas. E você achando que era apenas um sorriso tímido… Não, rapaz. Ele é baú de um tesouro perdido.

Fazia tempo que eu não a via esticar os lábios num riso tão puro. De
todos os sorrisos que ela tem, esse foi do que mais senti falta. É o meu
favorito, porque ela se ilumina quando o veste. Já reparou nisso?

Confesso que já havia perdido as esperanças de tornar a vê-lo.

Até que, naquele dia, um esboço dele atingiu a boca dela. E aí, meu amigo… Eu sabia que seria só uma questão de tempo até que ele viesse na forma completa de obra-prima.

Ele irradia, esse sorriso. Vira luz em torno do rosto. Se hospeda também nos olhos. Toma conta do corpo todo. Torna-se música lenta de romance que só o coração escuta. É poema silencioso aos apaixonados. É seu.

Textos

Gravidade

Na época de escola, tinha um amigo super apaixonado pela namorada – não que ela merecesse um terço daquele sentimento. Quando ele não estava por perto, nossa conversa era sobre o casalzinho, porque não aceitávamos que nosso amigo estivesse tão perdidamente cego por essa menina que aprontava poucas e boas – e ele sabia.

Até que eles terminaram. E voltaram. Terminaram. E voltaram. Aquele típico relacionamento ioiô. Em um dos términos, ele conseguiu se interessar por outra moça e até tentou sentir por ela o que sentia pela ex. Mas vi que era em vão, principalmente quando ele me ligou e disse: “Ela é ótima, mas não é a Carol“.

Hoje, eu o entendo. Todos temos uma “Carol” no histórico amoroso. Algo que não se explica, só é sentido (muito intensamente). E é essa intensidade que sempre nos leva de volta à gravidade daqueles seres. Ela é viciante e sempre queremos mais uma dose. Mas não se engane: Cada gole dessa união é tão delicioso quanto corrosivo.

Meu conselho? Negue a próxima rodada e todas as seguintes. Vai doer. Provavelmente, este será o “não” mais difícil de dizer. E, sim, haverá a fase de abstinência. Você vai querer ligar, mandar mensagem, puxar conversa sobre o tempo só para ouvir aquela voz novamente.

Não seja puxado novamente ao buraco negro. Liberte-se. Voe para longe, como estrela cadente, e conheça outras galáxias. Em uma delas estará o seu sol.

Textos

Chinelos

Fazendo uma limpa no armário ontem encontrei seu par de chinelos. É, aqueles azuis parecidos com os meus. Nem me lembrava mais deles e, agora que os vejo, todas as memórias da gente vieram à tona… Como se eles fossem um gatilho para o baú de lembranças enterradas.

No começo, você vinha pra cá e ficava descalço. Que agonia! Nem sempre dava tempo de limpar a casa e te ver circulando com os pés nus me deixava envergonhada. Por isso, sem perguntar nada, fui lá e comprei os chinelos. Acertei o seu número e o seu gosto. Sua resposta não poderia ter sido melhor: “Pronto! Algo meu para deixar aqui“.

Não demorou muito para chegar a escova de dentes, o shampoo, um pijama, a primeira caixa. Todas as suas coisas estavam aqui e, mesmo assim, você não trocou os chinelos. Continuava usando os que te dei. Até para ir a faculdade, lembra? Me deixava louca como você insistia que eles combinavam com calça jeans.

Eles nos acompanharam no dia-a-dia e nas aventuras. Nos passos da nossa história, dentre todos os nossos sapatos, eles foram os que mais estavam presentes. Achava engraçado como você sempre os deixava metodicamente alinhados em frente ao criado mudo antes de ir dormir. E, quando acordava, já os encaixava nos pés.

Foi com eles que você deixou as pegadas na areia na nossa primeira viagem a praia. E, naquele hotel-furada em que nos hospedamos, você os usou como arma para matar aquele inseto desconhecido e horrendo. Eu ainda digo que era alguma forma de vida alienígena.

E, agora, eles estão aqui empoeirados e amassados por causa dos outros sapatos que estavam em cima deles. Mas eles ainda guardam o formato dos seus pés… Talvez tão bem quanto eu guardo o formato do seu corpo no meu, agora desencaixado e sem saber para onde andar.

Textos

Não é amor

Já ouvi tantas vezes que amor é um campo de batalha…. Bobagem. Amor é um espaço feito para um piquenique ao por-do-sol. Quem opta por lutar somos nós, porque o ser humano tem essa tendência estúpida de fazer guerra. Deixa as armas pra fora. A armadura também. Vá despido de qualquer arsenal bélico.

Nossa falha (e, consequentemente, decepção) está em querer o fantástico. O extraordinário. Nossas expectativas se baseiam nos roteiros dos cinemas e best-sellers. Aquilo que nos vendem não é amor, é fantasia.

Veja bem: Não desacredito em grandes declarações, mas o amor do dia-a-dia não vai ter flashmob no parque em um dia ensolarado. Vai ter um sofá, dois travesseiros e um filme – nem sempre bom – na televisão. Ah, e uma louça na pia esperando ser lavada.

Amor é simples. A gente é que o torna complexo. Esquecemos como se aprecia os atos miúdos, como quando ele puxa o cobertor porque viu que você está arrepiada de frio, seguido por um beijo na testa ou na bochecha.

Não se deixe cegar nem confunda a fantasia com amor.

Amor, por mais romântico que seja, é pé no chão. É saber que nem sempre vai ser fácil. É criar expectativas, sim, mas não irreais. É sonhar, mas não viver no sonho. É aquele jantar surpresa que deixou você queimar, as risadas que vieram na sequência e a pizza que substituiu o frango destruído.

Sei lá… Não quero o “amor” de Hollywood. Quero aquele da sorveteria, da tarde tediosa de domingo, do brigadeiro de panela, do dormir na mesma cama mesmo depois da discussão besta, dos pedidos extras no mercado.

Se não for assim, com essas pitadas de realidade, não é amor. E se não for amor, que passe longe de mim.

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