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outubro 2014

Leitor

Nessa estrada

*Texto da leitora Luciana Ferreira, do blog Essa Vida Linda

Vem, entra. No carro da minha vida, o porta malas é grande. Cabe seus anseios e medos que descarregaremos no percurso.

Vem, entra. Estou levando minha bagagem de sede de experiências. Quando faltar em você, não se preocupa, empresto uma peça minha.

Vem, senta. Passa o cinto e entenda: não sei ser o tempo todo passageira nesse veículo. Aceita um pouco minha E.P., com componente masculino, como aceito a sua mulher. Que cuida, adota, planta.

Vem, aprecia a paisagem. Esta estrada é tão linda… Tem esquilos serelepes, borboletas que entram pela janela. Sim, nada de ar condicionado. Se integra no Universo comigo. Abre o teto solar, pro astro-rei nos acompanhar.

Ei, relaxa. Inclina o banco, recosta essa cabeça exaurida. Tira um cochilo gostoso ao som de “O que eu também não entendo” e vamos chamá-la “nossa música”.

Vem comigo nessa estrada, onde sou banho de cachoeira no dia tórrido de sol. Chalé charmoso com lareira no rigor do inverno. Varanda repleta de flores por toda a primavera. Fruta suculenta de outono. Varal permanente de poesia e pintura surrealista.

Vem, deixa pra trás o carregador de fardos. Para ser viajante merecedor, aceita não ter resposta sempre. Para e pede informação. A matemática da vida inclui divisão.

Vem, embora eu não venda ilusões. O tempo pode virar, chover forte, nevar. Nada demais, é só irmos devagar. Meu mapa de chegada traz manias e expectativas, contudo estou sempre aberta para trilhar outras vias que deem no mesmo destino. E este, a qualquer momento, pode ser consensualmente revisto.

Vem, racha comigo o pedágio da coragem. Acompanha as placas para não nos perdermos. Me adverte, porque gosto de correr. Porém, fique seguro, querido. Jamais nos colocaria em perigo.
Mas não está livre, essa sagitariana desastrada, de amassar um retrovisor na baliza.

Vem, que na estrada da vida sou co-piloto. Aventureira prudente. Turista do campo, praia, montanha
e demais paisagens, onde queira levar nossa intimidade.

Vem, meu lindo. Antes que seja tarde.

ETC

Vem logo

Para ler ouvindo: Break the Cycle – You + Me

*Texto publicado originalmente no Entre Todas as Coisas

O que você quer ouvir? Aliás… O que você precisa ouvir? Eu tenho as palavras aqui, é só dizer. Precisa escutar que posso te fazer feliz? Tudo bem: Eu canto e grito a quem quiser ouvir que posso – e, se depender de mim, vou.

Eu não sei por que as coisas aconteceram do jeito que aconteceram com você. Essa explicação, infelizmente, ficarei te devendo. Mas, se você quiser, eu posso te mostrar que há sentimentos maiores e melhores que o medo.

Pode se apaixonar: Sou eu. Vai ficar tudo bem. Deixa eu curar as suas feridas com os meus abraços, afagos, carinhos. Tenho tantos beijos guardados pra você na minha boca… É só você chegar.

E, quando vier, tire tudo. A roupa, a insegurança, o receio, os pensamentos que você enraizou profundo na sua mente de que, logo, algo vai dar errado.  Venha para mim despida e se entregue, não só ao meu corpo, mas à minha vida. À nossa.

Eu vou quebrar o seu ciclo de erros. Confia em mim e acredita que isso é possível. Eu posso tornar real, mas preciso da sua ajuda. Dispensa a descrença no amor e na paixão, porque eu sou diferente.

Sou eu – apaixonado e louco por você. E o que eu tenho é maior que toda a dor que você carrega, eu asseguro. Só segura a minha mão e veja meu sorriso quando nossos dedos se cruzam. Meus olhos vão te convencer que não estou falando da boca pra fora.

Pode vir. Ainda que tímida e devagar. Eu não tenho pressa, mas eu quero você aqui por inteiro. É a minha condição: Ainda que você esteja em pedaços, quero todos. Irei juntá-los e tornar você a minha obra-prima.

Então, sem mais delongas: Vem pra mim. Vem logo. Vem.
Textos

Os cacos e as promessas da minha vida

*Texto da leitora Rani Lisboa

Você e eu parecíamos um só. Era seu cheiro no meu corpo e meu corpo no seu abraço. Minha boca no seu ouvido dizia o clichê mais sincero: “Eu te amo, amor”.

Na minha estante, meus livros do Carpinejar e os seus de exatas. No seu quarto, um porta-retrato com uma foto nossa – aquela primeira que tiramos desde
que decidimos andar de mãos dadas na rua.

Éramos um só. Nossos planos, nossa vida, nosso amor.

Você gostava de me ver dormir e eu amava sua cara meio sem graça quando eu dizia “Cala boca, seu idiota. É você que eu amo” no meio de uma DR.

Lembro que, em um sábado de outubro, você disse que eu não fazia ideia do tanto que você me amava. Rebati dizendo que sabia, sim: era exatamente a metade do amor que eu sentia por você. Então, você me fez prometer que nunca lhe esqueceria.

Droga! Eu não deveria ter prometido isso.

Não é que eu quisesse te esquecer, mas logo eu, que nunca fui boa em cumprir promessas, me fiz refém de uma.

Sempre achei que o destino fosse nosso amigo… Afinal, me fez cruzar o seu caminho e me fez sentir toda aquela loucura de amor outra vez. Você me roubou o sono, me deu taquicardia e tremeliques repentinos. Eu estava realmente feliz e não ligaria de passar todos os meus invernos ao seu lado mas, para o meu desespero, o mesmo vento que te trouxe, te levou.

O nosso amigo nos deu uma rasteira e, de um jeito desajeitado, a vida separou o “nós” sem aviso prévio.

Eu não queria que você fosse, mas você foi.

Minha estante está vazia. Meu corpo precisa de cuidado. Toda tequila que bebo é uma tentativa frustrante de queimar toda saudade que se fez aqui dentro. Desde que largamos nossas mãos, meus dias andam cinza e embriagados.

A trilha sonora do meu quarto não toca mais seu disco favorito. Você se foi, mas continua dentro de mim.

Eu sei, preciso recomeçar, mas deixa eu curtir só mais um pouco a sua ausência. Você ainda está aqui e eu não posso simplesmente te expulsar (na verdade, nem consigo). Então, te deixo aqui, feito um inquilino barulhento que grita o tempo todo no meu ouvido e me impede de dormir.

Textos

Saia rodada e Sonic Youth

Vim aqui te pedir desculpas. Não pelas brigas idiotas, nem pelo meu jeito grosseiro de responder às vezes. Nem pelas vezes que esqueço a toalha molhada em cima da cama ou minhas meias jogadas pela sala. Quero me desculpar pela demora em te encontrar.

Eu também estava perdido, mas do outro lado do mundo. Você ia, eu vinha. Você pulava, eu abaixava. Você virava, eu seguia reto. Esses desencontros cotidianos que fazem a gente andar em círculos a procura de alguém.

Havia noites em que eu achava que estar no meu melhor. Enquanto isso, sem eu saber, você chorava. Ou, o contrário. Quando eu queria quebrar tudo, você dançava madrugada adentro. E nunca tínhamos os mesmos motivos para beber.

Nessas andanças da vida, eu sentia sua falta – sem saber quem era você. Mas foi a gente se esbarrar naquele 3 de julho pra eu saber, de imediato, que eu não estava mais incompleto. Era você. E como eu queria ter te encontrado antes…

Quando você chegou – aliás, eu adoro toda vez que você chega – minha felicidade veio junto, de mãos dadas com a garota da saia rodada e camiseta do Sonic Youth. Fiquei te olhando, extasiado, sentindo meu coração gritar: “É ela! É ela!”.

Te vi rir pela primeira vez. Conheci suas covinhas e sua timidez. Ouvi suas histórias, seus amores, suas aventuras. Se eu soubesse que era isso que o destino reservava para a gente, eu teria dado um jeito de te achar antes.

Se eu soubesse antes que meus dias seriam assim, eu teria arranjado alguma desculpa para sair antes do trabalho. Teria girado o mundo mais depressa pra gente se encontrar na casa de algum amigo em comum. Teria mudado meu caminho diário só para te encontrar.

Por isso, desculpa a minha demora. Se dependesse de mim, o tempo de espera e procura teria sido bem menor, quase inexistente. Breve como um piscar de olhos.

Textos

Aprendendo a viver sem você

Morria de medo de ficar sem você. A ideia me apavorava e fazia o coração disparar em desespero. Era inimaginável. Assustador… Era. Foi. Tempo passado. O presente agora é outro e, para o espanto total de alguns, só comigo.

Tô aprendendo a viver sem você. É algo que eu preciso fazer… É hora de encarar que eu tô sozinha e que tem um mundão lá fora, sem fazer nenhuma questão de esperar eu ficar bem novamente. Acelerei minha cura ao concluir que posso muito bem tocar a vida assim mesmo.

Não tá sendo a coisa mais fácil que eu já fiz na vida, mas as descobertas tem sido boas. A maior de todas é que eu consigo, sim, viver sem você – apesar da sua total descrença quando imaginávamos nossas vidas se desvinculando.

Tô aproveitando esse período de desgraça emocional para novas lições. Sabe, aquelas coisas que sempre nos dizem quando estamos mal, como “aproveite sua própria companhia”. E eu achava que isso era a pior coisa que podia acontecer quando estamos nesse estado deplorável de auto-piedade.

Para a minha surpresa, estava errada. E preciso preencher o tempo que assistíamos TV juntos com outra coisa. Preciso aprender a cozinhar outros pratos, além dos seus favoritos – Ah, acredite: Eu fiz um risoto funghi e ficou excelente.

A minha vida está se adaptando a sua ausência. Ainda não estou bem, mas vou ficar. E logo. Porque, por aqui, ela se mostrou nova e eu a abracei. Estou montando uma nova ponte em volta do buraco que você ocupava.

Ele não será preenchido. Está no seu formato e ninguém o preencherá. Mas, aos poucos, vai deixar de ser um incômodo e apenas fazer parte da paisagem.  Um sinal da passagem do tempo… Sinal da erosão da qual nosso amor foi vítima. Sinal de que você veio e ficou, mas não para sempre.

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