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setembro 2015

Textos

Eu caminhei em nuvens

Não sei se você sabe, mas somos companheiros de viagem diária. Geralmente, eu já estou acomodado nos assentos mais ao fundo quando você embarca. E é sempre um prazer vê-la subir a bordo. Eu te acho linda, moça. E sequer sei o seu nome e o que faz da vida.

Por favor, não me ache um louco por imaginar inúmeras situações em que me apresento e você sorri em retorno. Mas você já me encantou sem saber. Queria muito saber quais lugares você freqüenta para esbarrar com você e puxar assunto.

Ah, moça… Será que seu coração já tem habitante? Será que você pensa em alguém quando ouve suas músicas de olhos fechados? Maldita timidez que me faz ficar sentado aqui, só te olhando à distância.

Mas também… Se eu me aproximasse durante o trajeto, você poderia pensar mal de mim, já que tem tanto maluco por aí. Eu não sou como esses caras. Se eu tivesse a oportunidade real de chegar perto de você, seria para tentar ficar sempre ao seu lado.

Essa é a minha parada, moça. É a hora que, mentalmente, me despeço de você e te dou um beijo na bochecha – juro que é só isso! – como a despedida carinhosa de dois amigos. Ao me levantar, para a minha surpresa, você também começou a vir em direção a porta de saída. Perdi o fôlego.

Um cara grandão saiu apressado e quase te derrubou. Não acreditei quando me vi apoiando o seu braço para que não caísse. Apontei a porta, em sinal de que você poderia desembarcar primeiro.

Quando desci, você ainda estava ali, parada. Quase não acreditei que você ficara ali para falar comigo.

– Você foi muito gentil. Obrigada! – e me deu um sorriso mais lindo do que todas as versões que eu já imaginei.
– Não foi nada!
– Ei… A gente sempre pega esse ônibus, né? Acho que já te vi outros dias.
– Sim, esse é o meu diário.
– Ah, bom saber que um cavalheiro me acompanha. Obrigada de novo e tenha um bom dia,…

Era a deixa pra eu me apresentar.

– Felipe.
– Prazer, Felipe. – E, como eu sempre quis que fosse, você sorriu ao ouvir meu nome.  Meu nome é Bianca.
– O prazer é meu. Um bom dia pra você também. Até amanhã, então, né?
– Sim! Até.

Eu te vi ir para uma direção e eu peguei o meu caminho de sempre, na direção oposta. Mas hoje, moça, eu caminhei em nuvens e saí a assoviar melodias de um coração alegre.

Superela

Sobre o (fortíssimo) clipe de abuso sexual da Lady Gaga

*Texto publicado originalmente no Superela

Acostumados a ver Lady Gaga em trajes extravagantes, clipes cinematográficos e hits dançantes, esse vídeo nos surpreende em vários sentidos: a música é densa; a filmagem está em preto e branco; ela sequer aparece nas imagens.

Isso porque o foco de “Til It Happens to You” (Até acontecer com você) é a luta contra o abuso sexual que acontece nas universidades – Uma em cada cinco estudantes são vítimas nos campus universitários americanos. Assista ao clipe, lançado oficialmente na quinta-feira, 17 de setembro:

Até acontecer com você, você não sabe como é. Como poderia?”, pergunta Gaga no refrão. As estrofes também são fortes. “Você me diz que vai melhorar, que eu preciso manter a cabeça erguida, que eu preciso me recompor. Você diz que eu preciso seguir adiante, mas como você pode dizer isso, enquanto você não andar por onde eu ando?” (tradução livre).

A canção faz parte da trilha sonora do documentário “The Hunting Ground”, que trata justamente da luta de universitárias contra os casos de estupro dentro das próprias instituições de ensino. Conforme dados mostrados no longa, abuso sexual é o segundo crime mais frequente em universidades dos Estados Unidos, ficando atrás apenas de roubos e assaltos.

O filme, ainda sem data de lançamento no Brasil, mostra essas mulheres se unindo para tentar mudar essa realidade. “Elas foram de vítimas sexuais a sobreviventes. Agora, são ativistas”, anuncia uma voz no trailer oficial. Veja (ainda sem legendas):

E por que precisamos falar sobre isso? Porque a realidade no Brasil não é muito diferente. De acordo com o último Anuário de Segurança Pública (publicado em 2014), calcula-se que o número de estupros no país ultrapasse os 140 mil por ano. Desses, apenas 35% são denunciados (algo em torno de 25 mil registros).

É fácil apontar o dedo e dizer: “Ah, mas tem que ir à delegacia e falar mesmo” porque não é a nossa pele. Não é a nossa vida em risco – isso mesmo, “risco”. Porque muitas dessas mulheres são ameaçadas e atormentadas para permanecerem quietas. Elas não são vítimas apenas no ato sexual. Elas se tornam reféns.

A verdade é que o que precisa mudar não é o número de denúncias, mas o número de ocorrências. E, infelizmente, isso soa quase utópico, visto que o machismo está enraizado na maioria das culturas. Não é impossível, mas um processo lento e que requer muitas vozes até que se tornem um grito uníssono e ensurdecedor.

Pode ser que não aconteça agora. Mas se começarmos a enfrentar isso agora, poderemos não ter medo de que nossas filhas, sobrinhas, primas, irmãs, passem por isso no futuro. Que elas possam andar na rua sem medo. Que elas possam comemorar a conquista, não de uma geração, mas de um gênero – forte e lindo, sem nada a temer.

É isso que eu quero. E você? #VamosFalarSobreIsso

Superela

Eu tirei foto no espelho

*Texto publicado originalmente em Superela

Depois de algumas experiências, eu aprendi – finalmente – que a gente nunca pode dizer “Nunca vou fazer (insira alguma atitude da qual não gosta aqui)”. É pedir para o cuspe cair na testa. E eu juro que, às vezes, penso que tem alguém lá em cima que diz: “Ah… NUNCA, é? Veremos!” e, pouco tempo depois, adivinha o que estou fazendo? Exatamente.

Minha última “promessa de nunca” foi sobre tirar foto no espelho antes ou depois de malhar. Achava brega. Achava super ego. Achava coisa de mulher-menina que precisa de auto-afirmação e de muitos likes. Ou, ainda, achava que era atitude de moça esnobe, que quer jogar na nossa cara o corpão esculpido que tem.

Guarde essas informações. Vou voltar um pouco no tempo agora:

Há pouco mais de 15 anos, eu era uma criança atleta, mas “sem pescoço”. Ou seja, eu era gordinha. Vivia a base de miojo e refrigerante. Com a chegada da adolescência, isso ficou para trás. Parei de tomar refri e larguei o miojo por comida de verdade (mas não necessariamente mais saudável).

De uns anos para cá, melhorei bastante, mas continuava insatisfeita. Não que eu estivesse gorda. Aliás, sequer estava acima do peso, mas eu e meu corpo ainda não éramos muito amigos. Eu não gostava dele. Tinha barriga demais, peito de menos. Enfim… Neuras pequenas, mas grandes suficiente para não me deixar curtir meu próprio corpo. E só quem vive isso sabe como é triste olhar-se no espelho e só conseguir apontar o que gostaria de mudar, ao invés de destacar os pontos positivos. Reprovação diária vinda de nós mesmas. Isso é sério!

Esse ano, decidi que não queria mais isso para mim. Voltei a treinar boxe chinês (sanshou), passei a ter uma alimentação bem mais balanceada e correta (apesar de ainda não ter consultado uma nutricionista, que seria o ideal) e até me submeti a criolipólise – primeiro tratamento estético da minha vida. O resultado desse conjunto todo? Um corpo onde consigo me sentir a vontade. E isso é libertador, ainda mais depois de anos de espera por essa sensação e conforto.

Não quero dizer que sou a favor de corpos magros, sarados, etc. Não é nesse mérito que quero entrar. Não levanto nenhuma bandeira sobre padrão de beleza, porque acredito que cada uma sabe o que quer para si. Para mim, o importante é se sentir bem consigo mesma. E eu não tinha vivenciado isso ainda.

Após dois meses, já vi diferença gritante e eu queria, sim, mostrar a minha felicidade. E onde ela estava? No meu corpo. Então, peguei meu celular, fui para frente do espelho, fiz poses e me fotografei. Curti o que vi em todos os ângulos e ficou difícil escolher apenas uma foto.

E aí eu percebi como eu estava adiantando julgamentos preconceituosos sobre quem faz isso (aliás: “sobre quem fazemos isso”). Eu sei dos meus motivos. Das minhas lutas. Do tanto que suei para chegar até aqui. Não queria jogar nada na cara de ninguém. Não queria elogios. Eu só queria mostrar que estava orgulhosamente feliz. Diferente do que eu pensava, não é futilidade. É apenas uma vitória sobre uma baixo autoestima, que está ficando mais e mais longe do meu reflexo no espelho.

Postagem coletiva

Não acredito em amores finitos

Postagem coletiva do grupo Escritores na Era do Compartilhamento, com o tema: “Amores Finitos”.

Você sempre me dizia que nada é para sempre. Repetia que tudo, um dia, termina. Sucumbe. Mas você esqueceu que, para toda regra, há uma exceção. E, neste caso, é você. Sua presença pode não ter ficado, mas você permanece aqui.

Não acredito em amores que se dizem finitos. Para mim, amor é mutante. Vira carinho, saudade e, às vezes (muitas vezes), até dor. Aquela intensidade no peito que te faz querer explodir em lágrimas. Esse é o amor alojado no lado fragilizado do coração. O amor (ainda não amansado) por quem já foi.

Há pessoas que pensamos amar. Fazemos promessas impossíveis, dizemos que amamos “até a lua e de volta”. Juramos que matamos e morremos. Mas depois que elas passam, o que foi dito soa de uma imbecilidade sem tamanho. E é isso. Sem nenhuma palpitação diferente do coração.

Quando é amor, as mesmas promessas fantasiosas perambulam na terra do “E se..?”. E o nosso sorriso, ao nos recordarmos delas, é um misto de bobo com saudade, junto com um olhar nostálgico e com um pensamento: “Poxa, que época boa”. O amor se acomoda em sentimentos parceiros.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque hoje tocou uma das nossas músicas em um filme que assistia e eu senti. Não uma dor destruidora, que me fizesse não querer mais sair do sofá. O que eu senti foi o ponto e vírgula que a gente deixou em mim.

Revi nossas noites. Ouvi nossas risadas. Lembrei do seu gosto. Cheirei sua pele. Me afundei no tom de mar dos seus olhos. E foi gostoso… Ri sozinha – e até um pouco envergonhada – por me flagrar curtindo essas velhas sensações novamente, como se você ainda estivesse sentado ao meu lado ou deitado no meu colo.

Então, quebrando a sua teoria de que tudo termina: Amores não são finitos, meu bem. Eles se transformam em memórias.


Postagem coletiva – Leia também
(links serão adicionados aqui conforme forem publicados):

O espelho, por Mariah Alcântara
Nem adianta insistir, por Jeessy Batista
Você não sabe o que é o amor, por Cíntia Gomes

ETC

Eu queria que você fugisse de mim

*Texto publicado originalmente em Entre Todas as Coisas

Para ler ouvindo: Please Don’t Leave Me

Toda vez que acordo e te vejo ao meu lado, me pergunto: Como e por que você veio parar aqui comigo? Por quanto tempo vai ficar? Quanto tempo até eu estragar tudo? Ah, amor… Como eu queria não ser fraca para poder sustentar o que somos com você. Mas há dias em que mal posso comigo mesma por causa dessas dúvidas que me cercam.

Queria abrir os olhos um dia e ter certezas ao invés dessa enxurrada de perguntas. Queria saber o tempo todo que você está comigo porque gosta de mim como sou, do meu jeito estabanado, da minha necessidade em ir ao cinema toda semana, do fato de eu fazer questão de sobremesa todos os dias.

Fico feliz que você não consiga ler meus pensamentos (e feliz por já ter aprendido a desmenti-los com os olhos. Detestaria que você visse o tamanho da minha real aflição). Porque, aqui dentro, é um turbilhão sem fim. Uma guerra constante entre mim e eu. E todo conflito atinge inocentes…

Queria te salvar dos estilhaços. Mas como, se nunca há paz aqui dentro? Se o lado que te quer bem (e que me quer bem também) parece perder sempre? Ao mesmo tempo que te quero perto, porque tenho medo de ficar na minha companhia, eu quero que você fuja para longe de mim – e eu vou desmoronar quando isso acontecer.

Eu sou essa dualidade estranha e bagunçada que quer ser, mas não é o melhor para você. Eu tento, me esforço, mas tropeço nos próprios pés. Minha sorte (e que sorte!) é que eu sempre caio nos seus braços. Ah, quer saber? Não foge, não. Porque você é o único que, além de aparar a queda, faz com que meu coração fale mais alto que as vozes dos meus fantasmas.

ETC

Te descobri

*Texto publicado originalmente em Entre Todas as Coisas

Eu te descobri num olhar. Já tinha visto você várias vezes e passado horas na mesa do bar falando besteiras pela madrugada, mas eu ainda não havia realmente olhado você. E bastou um único olhar para eu realmente achar você em mim.

Você ria alto, como sempre. Sua risada sempre me agradou – e me fazia gargalhar junto. Já tínhamos tomado alguns rótulos aquela noite e não havia intenção de parar tão cedo. A banda grunge estava agradabilíssima.

E aí, para ilustrar a conversa do momento, eu toquei o seu braço. Toquei com carinho, confesso, mas achei que fosse só isso. Nos olhamos e os sorrisos ficaram sérios. Fixamo-nos um no outro. Te descobri, enfim. E, creio eu, o mesmo aconteceu com você, porque nada mais foi igual depois disso.

Sabe o que acontece quando descobrimos algo? Queremos mais. Queremos explorar tudo, conhecer a fundo, encontrar os segredos guardados e revelar os mistérios escondidos. Queremos cravar bandeira e proclamar posse. Esse foi meu erro.

Você não foi meu, nem por um segundo. No fim, acho que foi algum truque seu: deixar que eu descobrisse, fosse pioneira e abrisse caminho, para outros poderem chegar mais fácil. Eu construí a trilha que levava a você, mas não conquistei suas riquezas.

Eu te descobri num olhar… E te perdi quando quis abraçar o seu todo. Você é terra de ninguém. É mar nunca navegado, aonde me afoguei.

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