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novembro 2016

Leca

Vou me dar o direito de sumir

Às 6h30, de segunda a sábado, toca o despertador no celular. Desligo. Abro o Facebook e fico exatos 11 minutos rolando a timeline para ver o que de interessante (ou não) aconteceu enquanto eu dormia. Selfies. Gatinhos. Resultados de testes do tipo: “Como seria a sua versão no sexo oposto?“.

Se o Face não está lá muito bom, vou para o Instagram e vejo imagens – praticamente as mesmas que vi na outra rede social – carregadas de efeitos, brilho, contraste e etc. É bonito o mundo por ali.

Durante o meu dia, penso: “O que eu vou postar hoje? Preciso de um texto. De uma foto. De uma música legal para compartilhar. E piadinhas para o Twitter. Será que dá pra repeti-la no Snapchat?“.

E me pergunto onde está o meu proveito dos meus dias entre uma rede e outra. Então, decidi: vou me dar o direito de sumir. A ocasião também pede sumiço e privacidade. Vou casar e sair de lua-de-mel.

Leca, você não vai fazer posts da viagem?“. Não sei. E, se fizer, não vai ser em tempo real. Talvez uma foto de vez em quando no Insta para mostrar que estou viva. Posso anotar as dicas e passá-las depois para o blog. Mas, enquanto eu estiver lá, eu quero estar lá. Com el maridón recém assinado.

O Cereja no Ombro, como já disse na fanpage, ficará sob os cuidados de Caroline Sassatelli e Carolina Nepomuceno, minhas (lindas) companheiras de Entre Todas as Coisas – de onde, por sinal, também estou de folga por conta do casamento.

Eu volto na segunda semana de dezembro. Voltamos a nos conversar a partir de lá, tudo bem? Fiquem bem, se cuidem, não brinquem com fogo e curtam os textos das lindezas que vão tomar conta desse espacinho, ok?

Okay.

Leca

Notas sobre uma noiva ansiosa

Eu não estou dormindo a noite toda por causa da ansiedade. 80% dos meus sonhos envolvem casamento e alguma situação ridícula, do tipo: esqueci de comprar o sapato de noiva e vou ter que usar minha rasteirinha quase-gladiadora toda surrada.

Ontem terminei de fazer a limpa nos meus armários. Separei sacos e mais sacos de roupa para doação. Sapatos. Almofadas. Bijuterias. Cintos. Bolsas. Tudo que não vai, mas que também não merece ficar mais.

Tive que me desprender de todo apego emocional na separação das roupas. Aquelas bonitinhas que vieram de viagens e estavam no armário só por esse motivo. Por esse lado, foi bom. Libertador até… Não sei porquê guardamos tanta coisa. Achei até bilhetes de entradas de parques. Livros de teoria musical e de dinâmicas em grupo.

No meio da arrumação (ou ‘desarrumação’?), me peguei pensando: como é engraçado o curso natural da vida. De repente, a casa onde eu cresci e me criei vai se tornar “a casa dos meus pais”. Ando meio nostálgica, eu sei. Mas acho que não tem como não ficar vendo sua vida inteira sendo separada em caixas de mudança e de lixo.

Outra coisa que vai doer: Margot vai ficar em casa. Aliás… na casa deles. Não vou separá-la da Milly, muito menos privá-la do espaço para prendê-la num apartamento onde ficará sozinha. Pela primeira vez em 27 anos, não terei companhia canina diária.

Não vou nem citar meus pais, porque choro só de pensar. Quando eu era pequena, eu, minha irmã e minha mãe dividíamos a cama dos meus pais até dormirmos. Meu pai vinha nos buscar e, muitas noites, eu fingia que estava dormindo só para ele me levar no colo até o meu quarto.

Droga, já estou chorando.

Mas não pensem que estou triste. Pelo contrário! Estou muito animada com a mudança. Só fica esse pesinho no coração, mas estou pronta. É natural, eu acho, ficar assim, nostálgica. Ansiosa. Noiva prestes a mudar o status para “casada”.

Que venham novas caixas para serem preenchidas. Que venha a nova vida.

ETC

E quando a gente não se acostuma com o vazio?

*Texto publicado originalmente em Entre Todas as Coisas

Eu sempre achei que me adaptava fácil às novas rotinas. Se precisar acordar cedo, acordo. Se precisar fazer o turno da noite, eu me viro para botar o sono em ordem. Se eu cortar radicalmente o cabelo, duas olhadas no espelho bastam para eu reconhecer aquela pessoa. Por isso foi tão fácil acreditar que eu iria me acostumar com a sua ausência. Mas até agora…

Ainda não achei uma mão igual a sua, que tinha o tamanho certo para guardar a minha. Também não encontro suas pequenas gentilezas. Eu ficava tão orgulhosa quando você fazia uma pessoa qualquer na rua sorrir. “A senhora fica muito bonita de chapéu!”, e ela corava feliz. “Não fica com ciúmes, amor! Você fica bonita com chapéu, sem, careca ou toda cabeluda”, você complementava ligeiro.

E aí eu me pergunto: e quando a gente não se acostuma com o vazio que fica? É raro, mas acredito que algumas pessoas, quando grandes demais nas nossas vidas, deixam esse rombo que nada preenche e que tudo faz lembrar. E se nenhum dos meus risos chega perto dos que eu libertava quando eram com você? Eu tô nessa.

Outros bocas já passaram por aqui. Outros corpos. Outros gozos. Não que tenham sido ruins. Mas quando era a gente… A gente encaixou tudo de primeira, sabe? E não acho mais quem tenha o mesmo efeito. Talvez porque eu tenha ficado com as suas medidas e formato. Eu detesto gostar de alguém e, lá no fundo pensar que não é você ou que, com você, não era assim.

Quando a gente não se acostuma, parece que vamos para um mundo paralelo. Inverso. Onde quem foi ainda vive, mas não está. Não consigo me acostumar com a ideia de você com outro alguém. Essa imagem me causa estranheza. Não sei se é ciúme ou o que. Mas parece que o buraco que ficou aqui dentro aumenta e me vejo dentro dele por completo. Aliás, quase, porque você não está para eu ser inteira.

ETC

Nós dois não somos mais os mesmos

*Texto publicado originalmente em Entre Todas as Coisas

Quando vejo você por aí, nunca sei o que fazer. Se aceno calorosamente a mão e se só um balanço da cabeça seria suficiente. Nunca sei se devo me levantar para cumprimentá-lo ou se simplesmente ignoro. Essa costuma ser a minha opção… Como sempre fui distraída, não é difícil acreditar que você realmente me passou despercebido.

Mas, sabe, a cabeça fica projetando esses encontros hipotéticos e cheguei a conclusão que, se um dia nos esbarrarmos, o melhor a fazer seria me (re)apresentar pra você. Porque nós não somos mais os mesmos. E quem você conheceu (conviveu e amou), foi só uma versão anterior de mim. E vice-versa.

Hoje, acredite, cozinho bem e não durmo mais em filmes, já que eles se tornaram minha companhia na sua ausência. Parei de usar salto alto, porque não preciso mais me esticar para alcançar seus lábios. Só uso batom vermelho, não importa a hora do dia, porque eles me fazem sentir forte para ficar mais um dia sem você, mas ao mesmo tempo preparada para o caso de te encontrar.

Você, ouvi dizer, foi fazer mochilão no Peru. Quem diria… Você, que sempre preferiu conforto a aventuras. Também fiquei sabendo, através de amigos em comum, que desistiu da ideia de casar. O que vier, será. Logo você, que sonhava tanto quanto eu com o nosso grande dia.

Nós tivemos que matar aquela velharia que éramos, pro nosso próprio bem. O tempo reinventa. Remolda. Refaz. E a gente descobre que as novas partes são tão nossas quanto as antigas. Eu continuo sendo eu, só com uma nova roupagem. Mais solta. Mais porra louca. Até a minha risada, que você dizia ser preguiçosa, mudou. Faço escândalo agora, rio gostoso. Não por afronta às suas brincadeiras, mas como um cumprimento bem humorado a essa pessoa que me tornei.

Não somos mais os mesmos. Nem eu, nem você. Hoje, somos estranhos um ao outro, com um rosto familiar ao de alguém que conhecemos no passado. Eu brindo as mudanças, meu bem. Porque, sem elas, eu continuaria vivendo uma realidade em que você já não habitava mais.

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