Já era tarde noite quando ela tirou o papel e a caneta da gaveta. Delicadamente se esticou para acender o abajur. Uma luz fraca de tom amarelado surgiu num canto do quarto em breu. E, por sorte, ele não acordou.

Por um tempo, ela o fitou. Já conhecia cada detalhe daquele rosto. Sabia onde o cabelo fazia um redemoinho e onde surgia a covinha na bochecha quando ele sorria. Adorava aquela cicatriz na sobrancelha e o contorno daqueles lábios.

Estava frio, mas ele já tinha jogado a coberta longe e estava só com o lençol. Ele se mexeu e virou para a janela. Com isso, ela conseguiu ver a tatuagem nas costas. Era incrível como a mistura daquelas cores sobre aquele tom de pele pareciam uma obra de arte.

Decidiu fechar os olhos e parar de olhá-lo. Já era difícil demais, não precisava piorar as coisas. Sabia o que queria dizer, mas como fazê-lo era o desafio. Apenas deixou as palavras saírem.

“Não quero mais isso pra mim. 

É… Sem rodeios (algo surpreendente quando se trata de mim, não?). Mas é isso: Chega. Está na hora de seguir a minha vida sem interferências suas.

Dói demais, entende?

Aliás, nem adianta perder meu tempo perguntando isso, porque a resposta é, obviamente, ‘não’.

A sua instabilidade me confunde demais e não saber como agir me leva à loucura diariamente. Não saber o que dizer, como dizer, em que hora dizer… Não preciso disso.

Por sinal, querido, preciso confessar que estou pensando em outra pessoa. Com tantos joguinhos seus, não tive como evitar. Mas, de verdade, acho que você nem se importa que eu o faça. Se ao menos eu visse um cintilar de ciúmes nos seus olhos…

Não vou implorar por seu amor. Não tenho culpa se você não quer mais o que eu tenho de melhor para oferecer. Paciência… Eu tentei.

Não vou me estender, acusar, jogar na cara os seus erros e defeitos. Até porque eu sei que tenho grande contribuição no nosso afastamento. Cansei de viver essa mistura de resto de sentimento com muito de conformismo.

Adeus”.

Ao terminar, deu um suspiro aliviado e conclusivo. Olhou para ele novamente sob a luz amarelada. Dobrou o papel, levanto-se da cama e colocou a carta na gaveta da escrivaninha, junto com todas as outras que jamais foram enviadas.

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