“Pode ir sem olhar para trás. Eu já aprendi a cuidar de mim mesma”. Alice sabia que aquilo não era bem verdade, mas se começasse a acreditar naquelas palavras, talvez se concretizassem.

A semelhança com a protagonista do “País das Maravilhas” terminava no nome. Ela se olhava no espelho e não via nenhum sorriso flutuante de um gato maluco. Enxergava apenas o rímel escorrido até a bochecha e uma mancha preta embaixo de cada olho. Preferiu fugir do próprio reflexo e foi para a sacada acender um cigarro.

Inspirou a fumaça tóxica e deixou que ela percorresse vagarosamente os seus pulmões. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, como se tentasse ver o céu negro com as pálpebras cerradas.

“Estou uma bagunça”, pensou. Assim que terminou de fumar, voltou para dentro do apartamento e começou a se despir, como se tivesse alguém esperando por ela no quarto. “Ai, Alice… Como você é estúpida”, dizia.

Quando percebeu, estava novamente em frente ao espelho. Descabelada, borrada, nua, magra, pálida. Chegou mais perto na tentativa de desfazer aquela imagem, mas a proximidade só piorou a visão. Começou a chorar em silêncio numa autopiedade avassaladora.

Mas as lágrimas não amenizavam a dor e o quarto ficou gigantesco só com a sua presença. Antes era um lugar aconchegante. Um refúgio. Hoje, o que ela mais queria era sair dali. Explodir. Matar. Morrer.

Em vez disso, respirou fundo. “Calma, Alice, calma. Não é o fim e você sabe. Tudo será passado. Até ele…”. Foi para o banheiro e ficou embaixo do chuveiro, apenas deixando a água passar pelas costas e pelas cicatrizes do corpo e da alma.

Ao sair, já não tinha mais maquiagem e o cabelo molhado substituiu os fios cheios de nós. Era outra. Era limpa. Era Alice.

Aquela que, talvez, fosse aceita no País das Maravilhas se ele existisse. Aquela que duraria só mais um dia. Só até a noite chegar e o lado obscuro a convencesse de que a Rainha de Copas estava ali, pedindo que lhe cortassem a cabeça.

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