Esses dias, saindo do metrô, naquela muvuca toda, com gente esbarrando de tudo que é lado, perdi um amor. Deve ter caído do bolso. Ou, numa hipótese mais invasiva, alguém pegou e eu nem percebi. Voltei pelo mesmo caminho para ver se o encontrava, mas nem sinal ou vestígios do meu amor.

Já estava saindo da estação, absorta em pensamentos, tentando imaginar o que faria sem ele, quando uma porta me chamou a atenção: “Amores Achados & Perdidos”. Será que alguém levou o meu para lá? Resolvi tentar a sorte.

Quando entrei, acompanhada por uma senhora de olhos desbotados, havia centenas de caixas cheias de amores perdidos. Algumas pessoas estavam lá dentro. Umas, tentando achar o amor que lhes pertencia; outras nem haviam perdido nada, mas queriam encontrar algum que servisse (ainda que não perfeitamente). Aproveitadores, em minha opinião. Estavam levando amores de terceiros. E amor que não nos pertence não deve, jamais, ser levado assim, só por status. Só pra dizer: “Também tenho um”.

A esperança é o que mais me comove neste lugar. Me disseram que tem um homem que vem todos os dias olhar caixa por caixa em busca do amor perdido. Era o primeiro a chegar e o último a sair, sempre de mãos vazias. Achei bonito e triste ao mesmo tempo.

Comecei a procurar pelo meu. Achei que seria fácil reconhecê-lo de cara, mas não era bem assim. Tive que experimentar alguns, mas nenhum dava certo: O primeiro ficou tão grande que sobrava. O segundo ficou pequeno. O terceiro era exótico demais. O quarto tinha mofo. O quinto foi arrancado das minhas mãos por uma mulher, dizendo em êxtase: “Você achou! Obrigada!”. Saiu feliz com ele.  Aquele sorriso me fez intensificar a minha busca. Queria aquela sensação também.

As horas passaram e nenhuma caixa parecia guardar o meu amor. Não estava ali. Definitivamente, o perdi. Vai ver alguém o encontrou caído no chão e o levou para casa, prometendo mais cuidado que a dona anterior.

Se o encontrar de novo em outra pessoa, prometo me desculpar e apenas isso.

“Você foi perdido, e não esquecido ou rejeitado. Não te abandonei em um banco qualquer. Não tinha me enjoado de você, nem queria um novo. Você estava no lugar de sempre, onde o carregava para baixo e para cima com tanto cuidado, mas naquele dia, os empurrões e o acaso te fizeram cair sem eu perceber. Eu procurei por você. Mesmo depois de ter saído daquele depósito com as caixas, eu tinha esperanças de te encontrar na rua. E agora que te reencontrei, você já não é mais meu. Alguém te juntou do chão imundo e te quis mesmo quando você ainda tinha as marcas dos pés que te pisotearam (será que alguma era minha?). Não tenho mais o direito de pegá-lo de volta. Até porque, pelo que vejo, foram feitos ajustes e você não me serviria mais. Tudo bem… Sem ressentimentos. Só saiba que eu sinto muito ter te perdido, mas te olhando assim, acredito que o acaso sabia o que estava fazendo”.

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