Às vezes, eu queria entrar na sua mente. Imagino um lugar branco, cheio de arquivos e pastas cheias. Queria dar uma olhada rápida nos seus registros de infância. Achar neles qual era sua brincadeira favorita, a sua matéria predileta na escola, aquela lembrança já meio apagada de uma viagem a praia com seus avós.

Passar pelos documentos da adolescência e juventude. Até encontrar a pasta com meu nome. Descobrir em que categoria fui catalogada. Ver o que você considerou importante suficiente para manter no fichário. Ver suas anotações sobre os sentimentos que, um dia, causei. Rever nossos momentos mais marcantes (para você).

Será que você guarda nosso primeiro beijo ou o dia em que conheci seus pais? Será que você ainda mantém nos arquivos a letra da nossa música ou minhas manias que você gostava? Talvez eu encontre aquela discussão filosófica após um jantar regado a vinho. Datas, eu sei que não vou achar (aniversário de namoro, dia do nosso primeiro encontro, etc), mas sei que você guardaria a minha preferência por orquídeas.

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Quem sabe eu pudesse achar o perrengue na nossa viagem a São Paulo ou aquele dia de chuva em que ficamos vendo fotos antigas da sua excursão pela Bolívia. Será que a quantidade de risadas dessa noite também estaria contabilizada? E será que nas últimas páginas estaria o distanciamento que parece ter surgido do nada entre a gente?

Essas são as coisas que eu gostaria de ver, mas não sei se são as que eu realmente veria caso invadisse seus arquivos. Mas não vou passar por essa porta… Na verdade, eu prefiro que seja o contrário.

Às vezes, eu queria que você entrasse no meu coração. Veria o seu tamanho ali dentro. O tanto de carinho que ainda tinha em estoque nas prateleiras. Uma sala onde nosso filme rodava e sempre fazia o público se emocionar, chorar, aplaudir, pedir bis. Eu fico só na sala de exibição, vendo de longe, uma história sem felizes para sempre.

 

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