Você me disse em nosso casamento que eu sou sua escritora favorita. Então, mais do que nunca, eu farei o meu melhor para honrar o seu título a mim.

Essa carta, meu amor, meu grande amor, você não vai ler. Você já está com os olhos fechados, brincando com as cores do céu e de criar formas em nuvens. Você, imagino eu, está voando. Você gostava de sonhar que flutuava e, agora, pode fazer isso sem a necessidade de acordar.

Eu sei que você está bem. Eu é que estou lutando para ficar… Dói, amor. Tudo dói. E não é maneira de dizer. Acho que o coração não ia aguentar sentir tudo e a dor física ultrapassou barreiras para dividir o peso no corpo todo. Tenho a sensação de que minhas pernas vão falhar a qualquer momento.

Você está em tudo. Me pego chorando ao ver até um pote de requeijão. Lembranças que eu nem sabia que ainda tinha vem à tona com detalhes em evidência. Até a sua voz eu ainda escuto com clareza. Sua risada. Parece até que ainda sinto suas pernas por cima de mim quando me acomodo para dormir.

A verdade é que eu estou com medo, amor. Medo desse vazio colossal que ficou. Medo de ele nunca ser preenchido. Medo de nunca mais ser feliz e medo se eu conseguir sentir felicidade sem você. Medo de ficar sozinha e medo de, um dia, voltar a sentir algo por alguém.

A gente não previu isso, né? Estávamos tão ocupados planejando o futuro que esquecemos de nos preocupar com o presente. Me pergunto se você pressentia algo. E, se sim, por que não me avisou para eu não ser pega totalmente de surpresa. Mas tem jeito de estar pronto pra uma situação assim?

Me dizem para ser forte. Para me permitir sentir alegria outra vez. Mas a verdade é que me senti culpada quando consegui dar uma risada sem você por aqui. Parece que não faz sentido ou razão. Eu sei que você não gostava de me ver triste. Aliás, me disse estas palavras: “eu prefiro você feliz”. Eu só não sei como sê-lo sem você por perto.

Tô tentando escrever para ver se as coisas voltam a fazer sentido aqui dentro. Para eu tentar ler e reler que, na verdade, nada estava no nosso controle e que a gente fez tudo o que pode. Dissemos tudo que tínhamos a ser dito um para o outro. Para ter certeza de que fizemos um ao outro feliz, ainda que por um tempo incrivelmente mais curto do que gostaríamos e sonhávamos.

Sonhos… Eu ainda não sei o que fazer com os nossos que ficaram aqui nas minhas mãos. São recicláveis? Descartáveis? Editáveis? O que eu faço? Era você quem me ajudava quando eu me via numa situação de difícil decisão. E, confesso, peguei o celular algumas vezes para te enviar mensagem até eu lembrar que seria em vão.

Me ajuda aí de cima, amor, meu grande amor. Me tranquiliza como você sempre fez. Dá um jeito de me acalmar. Pede pra Deus te mandar durante meu sono pelo menos… Nem que seja de relance. Só até essa tristeza pesada passar. Vem com um dos seus pincéis e desenha um novo sorriso em mim. Um especial. Feito com amor, por meu artista favorito.

 

 

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