Fazendo uma limpa no armário ontem encontrei seu par de chinelos. É, aqueles azuis parecidos com os meus. Nem me lembrava mais deles e, agora que os vejo, todas as memórias da gente vieram à tona… Como se eles fossem um gatilho para o baú de lembranças enterradas.

No começo, você vinha pra cá e ficava descalço. Que agonia! Nem sempre dava tempo de limpar a casa e te ver circulando com os pés nus me deixava envergonhada. Por isso, sem perguntar nada, fui lá e comprei os chinelos. Acertei o seu número e o seu gosto. Sua resposta não poderia ter sido melhor: “Pronto! Algo meu para deixar aqui“.

Não demorou muito para chegar a escova de dentes, o shampoo, um pijama, a primeira caixa. Todas as suas coisas estavam aqui e, mesmo assim, você não trocou os chinelos. Continuava usando os que te dei. Até para ir a faculdade, lembra? Me deixava louca como você insistia que eles combinavam com calça jeans.

Eles nos acompanharam no dia-a-dia e nas aventuras. Nos passos da nossa história, dentre todos os nossos sapatos, eles foram os que mais estavam presentes. Achava engraçado como você sempre os deixava metodicamente alinhados em frente ao criado mudo antes de ir dormir. E, quando acordava, já os encaixava nos pés.

Foi com eles que você deixou as pegadas na areia na nossa primeira viagem a praia. E, naquele hotel-furada em que nos hospedamos, você os usou como arma para matar aquele inseto desconhecido e horrendo. Eu ainda digo que era alguma forma de vida alienígena.

E, agora, eles estão aqui empoeirados e amassados por causa dos outros sapatos que estavam em cima deles. Mas eles ainda guardam o formato dos seus pés… Talvez tão bem quanto eu guardo o formato do seu corpo no meu, agora desencaixado e sem saber para onde andar.

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