– Doutor, não sei o que está acontecendo comigo.
– O que você sente?
– Nada.
– Ué, como assim?
– É, doutor… Nada. Nadinha. Absolutamente…
– Mas… Em que sentido?
– Em todos! Não sinto o vento bater no rosto, a comida não tem mais gosto, a vida está tão monótona. Tem exame para descobrir o que pode ser isso?
– Hum… Há quanto tempo você se sente assim?
– Tem mais ou menos um mês.
– E o que aconteceu nesse tempo?
– Ah… Sei lá. Tantas coisas. 
– Mas deve ter algo marcante, não?
– Marcante? Ah… É, tem sim… Conheci alguém.
– Sei… E, quando você está com esse alguém, você continua sentindo nada?
– Não, doutor. Quando estamos juntos, eu sinto a vida em essência correndo pelas veias. Sinto a felicidade mais pura em cada sorriso. Sinto o maior dos confortos em cada abraço. Parece que tudo fica à décima potência. Tudo atinge o auge quando andamos de mãos dadas… Mas, então, quando nos separamos, nada. De uma hora pra outra.
– Entendi… Pois, eu sei qual é o seu problema, então.
– Sabe, doutor? E é grave? Tem cura?
– É grave, sim. Alguns casos são irreversíveis. Já vi gente dizer que estava morrendo por causa disso. E, caso não seja tratado… Aliás, caso seja tratado de forma errada, pode causar uma das piores dores que o ser humano é capaz de sentir. 
– Ai, meu Deus, doutor… 
– Não, não se preocupe. Pelo que você acabou de me contar, o seu caso não é maléfico.
– Ih… É um tumor? Diz que não, doutor…
– Não, não. Não é tumor. É algo que você pode, inclusive, tirar bom proveito.
– Ué… Mas, que doença é essa, que se pode aproveitar? O que é isso, afinal?

– Menina, não é doença. Você está sofrendo de paixão. 

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