Fomos um. Não entendia muito bem essa matemática de que, na soma de dois, se diminui e, ao mesmo tempo, se multiplica. Éramos um, mas éramos mais também.

Você pegou um pouco de mim e eu de você. Minhas manias se infiltraram na sua vida e as suas, na minha. É como ouvi uma vez num casamento: se misturar vinho branco ao tinto, e vice-versa, os sabores se incorporam e criam um novo. A cor escura se difunde e fica mais suave e não dá mais pra separar uma bebida da outra. É um ato irreversível.

Por isso fiquei com tanto medo quando você se foi. O que restaria de mim e o que sobraria de você? Acho que foi por essa razão que demorei tanto para deixar você ir…

Sua presença física podia não ser mais verdade, mas confesso que me apeguei às lembranças de você devido a essa paranoia de que, sem elas, eu me anularia. Não saberia mais distinguir o que era meu e seu e, portanto, ficar com tudo seria a solução.

Você assistiu aquele desenho “Up”, da casa que voa graças aos balões amarrados a ela? Era algo mais ou menos assim a minha relação com as memórias e, como no filme, um a um, foram estourando. No começo, nem fazia diferença – eu continuava no ar. Mas a altura do meu voo era proporcional ao número de bexigas. Até que as últimas se foram e eu estava no chão. Foi gradativo, sem solavancos. Pousei bem e em segurança.

Agora, em terra firme, eu dependo apenas de mim para andar. Não demorou muito para eu querer sair correndo e explorar tudo o que tem por aqui. Experimentar, tocar, fazer parte do meio ao invés de observar tudo à distância.

Eis que esta sou eu. “Uma” de novo… No meio de tantos outros números “um”. Não vejo isso como algo ruim. É uma aventura e eu aprendi a ficar bem assim.

Então, voa. Continue voando se é essa a sua vontade, mas eu vou ficar aqui, te olhando de longe até que você vire apenas um pontinho no céu e se perca no infinito.

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