Quando anunciei a partida, você aceitou sem pestanejar. Sem insistir para que eu ficasse um pouco mais. Sem implorar por mais cinco minutos… Você só disse “tudo bem” e me acompanhou até a porta. Abriu-a para mim e me viu sair. Escorri pelos seus dedos e você apenas observou.

Parasse em frente a saída e não me deixasse ir. Gritasse que não. Agarrasse o meu braço e dissesse: “Não, seu lugar é aqui”. Trouxesse o meu corpo para dentro de um abraço-cadeado. Ou, ao menos, me desse um beijo de despedida capaz de me fazer mudar de ideia…

Mas você permitiu que eu fosse. Não relutou. Não chorou. Não questionou. Não se impôs entre meus passos ante a porta. Não perguntou se eu queria companhia. Apenas deu passagem para que eu seguisse o meu caminho e sequer acenou um adeus.

Então, eu fui. Sob a sua espécie de bênção, eu simplesmente fui. Talvez você pensasse que fosse um blefe. Ou que eu voltaria logo. Ou, quiçá, estivesse tão cansado quanto eu para insistir… Para ficar. E, sabe de uma coisa? Acho que se fosse o contrário, eu também não te impediria.

O que resta, então? Poças de nós dois, buscando uma nova foz, desimpedidos. Vítimas e agentes de erosão do e no outro. Quando estivermos distantes, veremos a paisagem que resultou. Mas, por ora, somos apenas um buraco no solo, destoando a beleza natural.

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