– Pensei que você não fosse mais precisar de mim, menina. Depois de tantos discursos, achei que você tivesse, finalmente, aprendido a viver sem mim… 

– E aprendi mesmo.

– Então por que me trouxe de volta?

– Para te agradecer. Você tem razão. Aliás, você é razão. E precisei muito de você quando tudo estava de cabeça para baixo e eu caindo sem saber onde ia parar. Pensei que a dor no peito iria me sufocar cedo ou tarde. Achei que o coração não fosse sarar jamais… Mas você me mostrou sempre o outro lado.  Me disse, pouco antes de eu dormir após o choro, que um coração dolorido é melhor que um anestesiado. Que a dor, por mais forte que fosse, era a prova de que ele ainda estava ali, lutando para passar pela tormenta. Se eu não a sentisse, seria sinal de desistência. Obrigada por não me fazer desistir. Obrigada por mostrar que dores são necessárias e que nos fortalecem. Formam uma crosta mais forte e resistente. Por sinal, isso foi outra coisa que você me ensinou. Eu achava que ser resistente era ser impenetrável. E você abriu meus olhos, dizendo que não precisava ser tão extrema. Me falou que a crosta não servia para deixar todos para fora, mas para selecionar melhor quem deveria (e merecia) entrar. 

– Menina, não me agradeça. 

– Mas eu quero. 

– Não precisa. Você ouviu aquilo que já sabia. Aquilo que, no seu íntimo, era óbvio. Mas quando a gente sofre, menina, fica difícil focar mesmo no que já nos é sabido. Falo “nós” porque, quando você chora, eu choro junto. E quando você ri, eu me alegro junto. Eu e você somos um. Somos o mesmo. Por isso, não tem por que agradecer. Isso tudo que você aprendeu é mérito seu. Agradecer a mim seria agradecer a você mesma. 

– Então, quer dizer que eu passei por tudo isso sozinha?

– Sim, menina. Você se fez forte. E eu assisti tudo de camarote. Parabéns. O espetáculo foi lindo, mas já aviso: ainda está longe de acabar. 

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