Por muito tempo eu tentei me encaixar nos seus gostos pré-moldados. Seguir à risca as suas exigências. Mudei o cabelo porque você gostava dele natural ao invés de vermelho. Parei de usar sombra escura porque você preferia a maquiagem mais natural. Cuidei da alimentação porque você não ia continuar comigo se eu engordasse. Joguei fora meus CDs porque você não achava certo eu ouvir rock.

Atendi aos seus comandos com sorriso no rosto, achando que eram verdadeiras demonstrações de amor. Abri mão de mim mesma em seu nome, crendo que seria o único jeito de vivermos felizes para sempre. E foi tudo em vão, porque, mesmo atendendo aos seus pedidos, eu não fui boa o suficiente para você. Desisti de mim para que eu vivesse a dor de uma traição.

Aliás, duas. A primeira quem cometeu fui eu mesma. Traí a mim mesma ao ter abaixado a cabeça para o seu bem. E eu só consegui perceber a besteira que fiz anos depois. Vivi um relacionamento abusivo sem saber, porque, na época, ninguém falava sobre isso. Era comum a gente ceder e fazer sacrifícios por quem a gente ama. Buscar a perfeição para agradar os outros era usual.

Hoje sei que eu não quero ser perfeita. Sou cheia de falhas, defeitos, imperfeições. Uns ocultos, outros bem evidentes. Alguns físicos, outros na personalidade. E, a menos que eu queira mudá-los, vão permanecer do jeito que estão. Porque eles também compõem quem eu sou. E, olha… Tá bom assim.

Pena que eu nunca mais te encontrei. Porque eu queria que você me visse sendo vocalista de banda. De cabelo curto e azul. De sombra preta e batom vermelho. Comendo hambúrguer e sendo feliz, sem culpa – e sem ninguém me dizendo: “Se você ficar gorda, eu te largo”. Queria que você visse como eu não apenas reaprendi a ser eu mesma como me aprimorei nas descobertas.

Demora. Exige paciência. Ainda estou achando pedaços de mim por aí. Partes que eu nem sabia que existiam. Descobri, por exemplo, que gosto de homens de barba. Vejo, hoje, que ao seu lado, jamais haveria um “felizes para sempre” e agradeço o fato de eu ter percebido isso a tempo. Minha felicidade começou quando você se foi. E hoje, eu vivo a sorrir.

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