* Texto do leitor André Olliver, do Blog das Horas Comuns

[Escrito ao som de Dancers – Axel Flovent]

Eu não sou obrigado a esquecer você. Ainda não esqueci do meu tênis velho, que tá todo furado, todo rasgado e todo machucado. Não tenho coragem de me desfazer dele, talvez porque ele me acompanhou em tantos caminhos. E você? Por que eu sou obrigado a me desfazer de quem você foi?

Sabe aquela parte toda furada, toda rasgada e toda machucada dentro do meu peito? É você. Mas as suas cores continuam vivas na minha memória, e ainda que eu tenha revirado tudo, tenha me desfeito de cartas, ingressos de cinema e outros detalhes de nós dois.. Esquecer? Não, eu não sou obrigado a esquecer você.

Eu era o cara das profundidades, você sabe. Eu não era dos que boiavam na superfície. Eu mergulhei, eu me afundei, eu me joguei de cabeça, eu me virei todo em você, mas me afoguei no seu silêncio. Hoje, o que restou da nossa descida ao fundo dos mais profundos de mim e de você, foi uma respiração ofegante de algumas mágoas dessa dor.

Você é o outro agora, é o cara das antigas, é o cara de dois mil e poucos.E eu, por um tempo, fui o cara das páginas ainda não viradas, das escovas de dente solitárias e das mensagens não mais enviadas. Mas esquecer? Não, eu não sou obrigado a esquecer você.

Fica tranquilo, porque lembrar de você não é mais como cair pra trás, sozinho num vazio de possibilidades impossíveis. Não é como colocar o meu coração e a minha capacidade de me manter em mim contra a parede. Lembrar de você é ter a certeza de que continuo a respirar, mesmo que eu ande recolhendo cacos e construindo vitrais, só para o Sol colorir os meus cantos. As portas ficam sempre abertas agora e gosto de ver o vento levando pra longe a poeira que você deixou parada nos corredores.

Mas, esquecer? Não, eu não sou obrigado a esquecer você.

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