*Texto publicado originalmente em Entre Todas as Coisas

[Você pode ler este texto ao som de Ribs]

Eu perdi o chão quando ela se foi. Eu tentei não cair tão feio, mas ia além da minha vontade e esforço. E eu fazia o que dava para tentar preencher o vazio. Bebia doses para esquecer que eu sentia a falta dela. Beijava bocas e corpos para anestesiar a dor. Mas, de manhã, quando não havia nada disso, tudo voltava com força e me jogava no chão. Eu tava além da fossa. Eu tava na merda.

Até que você veio. Sorrindo. Brincando. Provocando. Quando você surgiu, eu vi a tal luz no fim do túnel. Você silenciou a voz dela que remanesceu. Você substituiu a companhia do whisky. Você devolveu minha sanidade. Depois de um tempo, eu nem lembrava mais por que eu estava a beira do precipício antes de você chegar. Você me enlouquecia cada dia mais.

– Vamos viajar! – convidei.
– Vamos. Para onde?
– Para onde você quiser. E digo mais: A gente nem precisa voltar!
– Ah, bom se fosse, né?
– Por que não?
– Ué, ta maluco? Não dá.
– Claro que dá! Eu to cansado daqui. Tenho muitos fantasmas nesse lugar. Eu quero tudo novo. E quero com você… Eu te amo.

E você calou. Só sorriu e me deu um beijo. Desbaratinou e começou a falar de uma blusa que vira no shopping. Isso me gelou a espinha. Me fez querer pegar as palavras de volta e engolir com as já aposentadas doses de whisky. Quis me dar murros na cara. Mas o que eu queria mesmo era ouvir você dizer que me amava de volta. Entretanto, nada.

Não repeti aquelas palavras. Resolvi esperar por você, mas já era tarde. Depois daquele dia, você foi sumindo. Não sorria mais tanto. Não provocava mais tanto. Não queria mais estar ali. E eu fui afundando de novo. Você era meu salva-vidas no mar feroz. Mas você não queria essa função. Ou, talvez, não podia sê-la. Não tive tempo de descobrir.

Então, eu estou aqui de novo. No fundo, junto com tantos sonhos que tive para nós dois. Erro meu, confesso. Sempre fui apressado e, agora, pago o preço. Eu não queria voltar aqui. E não precisava estar, porque eu vi nos seus olhos, que você também já sentia algo a mais por mim. A gente poderia estar feliz, sabe? Eu poderia estar bem de novo.

Eu pedi para você me salvar.
E você disse “não”.

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