Faz frio aqui. O vento gelado entra pela porta que você nunca fechou. Ela continua escancarada, iluminada pela luz da varanda, para o caso de você voltar. Mas conheço o seu orgulho – e você o meu. Eu não saio. Você não entra.

Não admito desfazer algo que você deveria consertar. E você jamais assumiria que esqueceu, sem querer, a porta assim. Vai dizer que foi de propósito, para me ver soltar ar gélido pelas narinas.

É a luta dos egos feridos. A batalha épica do indivíduo por sobrevivência. O conflito final das vanglórias estraçalhadas.

Me pergunto como é que fomos acabar juntos…

De cada faísca, fazíamos uma explosão. De cada gota, uma
tempestade. E nunca o braço a torcer. Nunca. Isso seria demonstrar
fraqueza ao outro e isso, meu bem, você não poderia ver em mim. Éramos
grandes demais e um queria ser sempre maior que o outro. Tudo virava
competição. Se eu fumava um cigarro, você tragava dois e eu já dava um
jeito de acender o meu terceiro.

Não éramos parceiros. Éramos concorrentes um do outro. Dois titãs na briga por… Pelo que, afinal? Ninguém recebeu troféu ou coroas de louros. Não tem nenhuma estátua em minha homenagem pela cidade. E eu sequer vi rua com seu nome. Ambos perdemos uma guerra fictícia na disputa de coisa alguma.

Éramos intensos, explosivos e geniosos. Parecidos demais nas características negativas para que déssemos certo. E não vamos mudar, eu sei.

Também sei que você está aí fora, à espreita, esperando que eu saia. Mas não vou. Não posso. Não consigo, por mais que eu quisesse. Você me machucou demais ao me confrontar inúmeras vezes.

Se você voltasse, seria aos berros, com a mão fechada em soco, só para gritar: “Eu não te amo mais!“. Em resposta, diria: “Eu que não amo você!“. E viraríamos as costas um para o outro, desejando, em silêncio, que fosse diferente e sabendo que nenhum de nós dizia a verdade.

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