Quando estava na Espanha (no ano passado), ouvi por várias vezes “O Brasil é gigante!”. Me doía ter que responder que, apesar do gigantismo, meu país permanecia apenas “deitado em berço esplêndido”, sendo feito de trouxa – e o que é pior, se permitindo viver tal papel de tolo.

Até que tudo começou. Os R$0,20 centavos encheram o balde da paciência dos brasileiros. A última gota. Bastou esse gatilho para uns saírem às ruas de São Paulo e outras cidades seguirem o exemplo. Não vou ficar me alongando nessa parte porque a contextualização é desnecessária.

Este post é, na verdade, um relato do que eu vivi ontem. De como foi me envolver e fazer parte de uma nação que se cansou.

Conforme eu disse aqui, a Marcha em Apoio à Revolta do Vinagre (ou, como usamos, o #MudaFoz) começou no Terminal de Transporte Urbano de Foz do Iguaçu. No Facebook, mais de quatro mil pessoas confirmadas. Pensei comigo: “Se 500 aparecerem, vai ser muito“. Para a minha total surpresa, foram mais de dois mil participantes. Ao ver a multidão no ponto inicial da marcha, estremeci num misto de alegria com orgulho.

Primeiros manifestantes em frente ao Terminal de Transporte Urbano de Foz do Iguaçu (foto tirada pelo celular)

Quando o sinal fechava, protestantes iam para a rua. Com boa organização e ajuda da Polícia Militar e
Guarda Municipal, sem confusões.

Eu estava com a câmera fotográfica nas mãos, a trabalho. Mas, lá pelas tantas, meu colega pediu a máquina e eu fiquei livre. Quando dei por mim, estava no meio do mar de gente, gritando “Vem pra rua!” com toda a força que eu tinha, convocando mais iguaçuenses a fazerem parte daquilo. Ainda no começo do percurso, em uma curva, olhei para trás e vi um rastro de gente. Novamente, meu coração palpitou com mais força.

Olhei pra trás e não conseguia ver o fim da marcha.

“Vem pra rua!”

Ao chegar na Avenida Brasil, principal via comercial da cidade, vi pessoas nas janelas e fora das lojas aplaudindo, fotografando, filmando, gritando, cantando. Minha garganta já não aguentava mais berros, mas eu nem queria saber. Ainda mais quando começamos a entoar “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor“. Pela terceira vez, em cerca de meia hora, eu tive vontade de chorar.

“Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”

Avenida Brasil foi totalmente “preenchida” pela manifestação

Levamos cerca de uma hora para fazer um percurso de dois quilômetros, no máximo. Vi gente de todas as idades segurando cartazes, usando narizes de palhaço, fazendo barulho com tambores, apitos e vozes e vestidos com a bandeira nacional. Me arrependi por não ter levado coisa alguma… Mas, estava lá! Me sentindo mais brasileira do que nunca. E essa sensação só aumentou quando, ainda que tímida, a passeata foi embalada pelo hino. “Conseguimos conquistar com braço forte (…) Pátria AMADA, Brasil“.

Para encerrar, assim que chegamos a Praça da Paz, voltamos a cantar que somos brasileiros, com muito orgulho, com muito amor. Eu estava tão no fervo para tentar registrar aquilo que saí correndo, subi numa árvore e fiquei observando, totalmente encantada, aquelas pessoas fazerem parte do início da mudança. Nessa hora, eu não consegui cantar. Eu só apreciei e ouvi, apoiada nos galhos daquela goiabeira.

Sim, eu sei que a foto está péssima. Mas eu nem reparei na hora que ficou assim…
Agora sim! Foto por Rafael Guimarães (Clickfoz)

Praça da Paz em outro ângulo. Foto por Marcos Labanca.

O Brasil acordou. O GIGANTE, aquele que eu lamentava ver acomodado, enfim se pôs em pé. Queremos mais que futebol. Não queremos mais ser apenas o país do Carnaval. Reivindicamos o desenvolvimento e direitos que não deveriam nunca ter sido negligenciados. Saúde, educação, segurança, uma vida digna e plena de respeito por quem escolhemos para tomar conta da nação.

Este, senhores governantes, é o valor do nosso voto. Não os colocamos em vossos tronos de graça. Isso – ao que parece – acabou (graças a Deus!).


Foz do Iguaçu volta às ruas neste sábado, 22 de junho, às 18h (novamente, saindo do TTU).

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