Estavam no carro, a caminho o restaurante de todo sábado. Ele dirigindo, ela no banco do carona, como sempre. A estação de rádio estava sintonizada, mas nenhum deles ouvia o que o locutor falava, como era de costume. Era só pra ter algum som ambiente. Caso contrário, seria o silêncio pesado e desconfortável.

Ele olhava para frente. Ela, para o lado, como sempre fazia quando estava pensativa. “Como chegamos a isso? Éramos tão próximos e agora, tão distantes, mesmo lado a lado. Quando foi a última vez que dissemos ‘eu te amo’? Será que acabou porque paramos de falar um ao outro ou paramos de dizer porque já não havia mais amor para verbalizar?

Lembrou-se de quando se conheceram. Do primeiro beijo. Do primeiro jantar em família. Do primeiro Natal juntos. Do primeiro aniversário. Da primeira briga. Da primeira dúvida. E, agora, da primeira certeza.

Recapitulando, não havia nada de errado para ter chegado a isso. “Eu tentei. E, por um bom tempo, achei que tinha conseguido. Lembra que você costumava me chamar de linda o tempo todo? Agora, sequer me chama. E sabe o que é pior? Eu não me importo. Eu vou porque tenho que ir, não porque quero. Quão errado estamos nisso? Por que ainda estamos nisso?“. E começou a chorar quieta.

– Fábio, para o carro.
– Por que? Tá tudo bem?
– Não. Para o carro.

Puxou o carro para o acostamento.


– O que aconteceu?
– Preciso ir.
– O que? Como assim, Bia? Tá maluca? A gente tá indo jantar, esqueceu? 
– Eu não vou mais. Pode ir se quiser. Eu fico aqui e pego um táxi para voltar.
– Bia, o que aconteceu?
– O que parou de acontecer… Eu não te amo mais. Nem você a mim.

Ele ficou sem resposta.

– Tá tudo bem, Fábio. Dói em mim também, mas não existe culpado. Não vou jogar nada na sua cara e espero que você faça o mesmo. O nosso “para sempre” chegou… Mas não sabíamos que não seria “felizes”. Ou até seja… Aliás, eu quero que você seja. Só não poderá ser comigo. Fica bem.

E desceu do carro no caminho contrário, abrindo mão do jantar de sábado no restaurante de sempre e sem ouvir a estação de rádio de costume. Ao invés disso, escutava as buzinas e via as luzes do carro ficando para trás, junto com alguém que, um dia, partilhou a ilusão da eternidade.

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