Escrever é libertador. A gente põe pra fora coisas que a gente nem sabia que tinha. Usa um palavreado que nem imaginávamos saber.

A escrita é a forma que o coração encontra para desabafar, soltar os demônios, permitir declarações de amor e implorar perdão. É a alma aprisionada em palavras.

Mas quando a gente escreve demais, viramos reféns da escrita. Perdemos o jeito de falar olhando nos olhos. As palavras tropeçam na língua e caem sem jeito. Despencam. E algumas delas nem passam pela garganta.

Falar torna-se comunicação secundária e desajeitada. A fala é menos poética e mais suscetível a erros e más interpretações. Palavras faladas não podem ser apagadas com a borracha. Elas voam pelo ar até pousarem, sabe-se lá como, nos primeiros ouvidos à disposição.

A escrita deixa a gente mal acostumado. Faz a gente pensar em cada palavra e olhar atentamente as letras surgindo, uma a uma, no papel. Faz a gente enrolar até chegar no ponto (final, de exclamação ou interrogação).

Falar fica difícil e arriscado quando estamos sob a custódia da escrita. Por isso é melhor falar pouco. Falar só o essencial. Ou, pensando bem, talvez nem isso.

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