Ela nunca foi paciente. Estava sempre com pressa, querendo sempre “agora” e ““. Não entendia porque os malditos ponteiros demoravam tanto para completar os 360° do relógio. O “depois” não fazia sentido e o “mais tarde” a irritava profundamente. Paciência é virtude – para os outros. Para ela, impensável.

Até que não teve jeito…

A Espera a encurralou. Não tinha como fugir da danada. Ela foi obrigada a aguardar. Foi vítima dos Segundos, roubada pelos Minutos e sequestrada pela Horas. Depois de tanto tempo fugindo, foi amordaçada pelo Tempo, enfim.

Enquanto mantida em cativeiro, conheceu o Tédio e o Ócio. Apesar de meio chatos, tinham lá seus bons momentos e qualidades. Conversava com o Ninguém e descobriu que o Silêncio pode ser uma companhia agradável. E, no canto úmido da cela, encontrou a Paciência, que a ensinou muito e a fez ter uma outra perspectiva sobre o Tempo. Aí, não demorou muito para gostar dele. Foi então que percebeu que estava sofrendo da Síndrome de Estocolmo.

Queria mais dele. Queria suborná-lo. Tentou convencê-lo a dar-lhe mais das Horas. Insistiu que
os Minutos voavam. Teimou que os Segundos vinham em quantidade insuficiente. Tentou negociar com seu carcereiro. 
– Eu preciso de você em maior quantidade.
– Ora, ora… Onde está aquela pressa toda?
– Eu sinto muito… Eu aprendi a lição. Descobri que gosto de você, Tempo…
– Ah, e o que a fez mudar de ideia?
– As circunstâncias.
– Elas fazem bem o trabalho delas, admito. Mas, acho que você não merece mais das minhas Horas.
– Por favor! Não precisa ser sempre… Só de vez em quando. No restante, você pode seguir o seu ritmo normal.
– Hum… E pra quando seriam essas horas extras?
– Quando eu estiver naquele abraço, Tempo. Diminua. Seja lento. Vire a Eternidade quando eu estiver lá.


Mas o Tempo é duro e não cedeu… Depois de libertá-la, a viu correr para o abraço citado. E por travessura, acelerou, só para vê-la adiantar a despedida.

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