*Texto publicado originalmente no Superela

Acostumados a ver Lady Gaga em trajes extravagantes, clipes cinematográficos e hits dançantes, esse vídeo nos surpreende em vários sentidos: a música é densa; a filmagem está em preto e branco; ela sequer aparece nas imagens.

Isso porque o foco de “Til It Happens to You” (Até acontecer com você) é a luta contra o abuso sexual que acontece nas universidades – Uma em cada cinco estudantes são vítimas nos campus universitários americanos. Assista ao clipe, lançado oficialmente na quinta-feira, 17 de setembro:

Até acontecer com você, você não sabe como é. Como poderia?”, pergunta Gaga no refrão. As estrofes também são fortes. “Você me diz que vai melhorar, que eu preciso manter a cabeça erguida, que eu preciso me recompor. Você diz que eu preciso seguir adiante, mas como você pode dizer isso, enquanto você não andar por onde eu ando?” (tradução livre).

A canção faz parte da trilha sonora do documentário “The Hunting Ground”, que trata justamente da luta de universitárias contra os casos de estupro dentro das próprias instituições de ensino. Conforme dados mostrados no longa, abuso sexual é o segundo crime mais frequente em universidades dos Estados Unidos, ficando atrás apenas de roubos e assaltos.

O filme, ainda sem data de lançamento no Brasil, mostra essas mulheres se unindo para tentar mudar essa realidade. “Elas foram de vítimas sexuais a sobreviventes. Agora, são ativistas”, anuncia uma voz no trailer oficial. Veja (ainda sem legendas):

E por que precisamos falar sobre isso? Porque a realidade no Brasil não é muito diferente. De acordo com o último Anuário de Segurança Pública (publicado em 2014), calcula-se que o número de estupros no país ultrapasse os 140 mil por ano. Desses, apenas 35% são denunciados (algo em torno de 25 mil registros).

É fácil apontar o dedo e dizer: “Ah, mas tem que ir à delegacia e falar mesmo” porque não é a nossa pele. Não é a nossa vida em risco – isso mesmo, “risco”. Porque muitas dessas mulheres são ameaçadas e atormentadas para permanecerem quietas. Elas não são vítimas apenas no ato sexual. Elas se tornam reféns.

A verdade é que o que precisa mudar não é o número de denúncias, mas o número de ocorrências. E, infelizmente, isso soa quase utópico, visto que o machismo está enraizado na maioria das culturas. Não é impossível, mas um processo lento e que requer muitas vozes até que se tornem um grito uníssono e ensurdecedor.

Pode ser que não aconteça agora. Mas se começarmos a enfrentar isso agora, poderemos não ter medo de que nossas filhas, sobrinhas, primas, irmãs, passem por isso no futuro. Que elas possam andar na rua sem medo. Que elas possam comemorar a conquista, não de uma geração, mas de um gênero – forte e lindo, sem nada a temer.

É isso que eu quero. E você? #VamosFalarSobreIsso

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