Se fosse possível criar uma máquina do tempo, eu queria entregar uma carta – esta que escreverei abaixo. Sim, uma carta de amor. Para alguém de dez anos atrás… Não, não é o menino bonito que estudava na sala ao lado ou para algum namoradinho da época. A carta é para mim.

Então…

Oi, Eu de 2004. Como estão as coisas?

Pergunto por educação, porque eu sei como estão.

E vim te falar uma coisa importante: Vai passar. Tudo isso que você considera ser trágico, não é. Corações saram. O seu não é diferente. Você consegue viver sem algumas pessoas. Pode não ser fácil no começo, mas é questão de tempo até dar certo. Portanto, não se preocupe com esses sentimentos que você acredita ser amor. Eles são apenas um ensaio do real sentimento (que, lamento informar, vai levar mais uns três anos para chegar).

Você vai mudar. Não adianta ler esse aviso e dizer que não, que vai evitar. Não vai. E é melhor que não o faça, porque você se torna uma pessoa melhor. Os abraços que você recusava? Vai passar a doá-los, a oferecer sem ninguém pedir. E vai abraçar forte. O punk rock vai diminuir nos seus dias e dar espaço ao rock clássico, à MPB, ao rock nacional, ao pop. Sim, pop. O seu medo de agulhas diminuiu… Já até consegue doar sangue.

Você continua não gostando da cor rosa e ainda não sabe paquerar muito bem. Freddie Mercury continua sendo o melhor cantor que já existiu (na nossa opinião). Você aprendeu a tomar cerveja e vinho, sabe tocar violão, fala quatro idiomas (eu sei que você mal começou o último livro do curso de inglês, mas é isso mesmo), aprendeu a ser paciente, a conversar melhor com o pai e a mãe, a dirigir (mas sentiu medo no começo), a gostar e a fazer maquiagem. Aprendeu, enfim, a ser um pouco mais feminina sem ser dondoca.

Você aprendeu a se achar bonita em alguns dias (ainda estou trabalhando nisso). E estamos aprendendo a ser mais confiantes… Ah, você aprendeu a não ser tão perfeccionista com você mesma. Aprendeu a ouvir melhor as críticas (mas elas não deixam de doer ou incomodar). Você aprendeu a ser paciente. Aliás, essa é a lição de agora (2014): Paciência. Você aprendeu a cuidar de um jeito que você jamais pensou precisar aprender.

Sabe, Eu de 2004, eu poderia te contar, detalhadamente, o que está por vir. Das perdas e ganhos. Das mudanças físicas (por exemplo: se bem me lembro, há dez anos, o nosso cabelo era um ondulado vermelho, não? Pois agora está curto e ruivo, mas mais para o laranja), emocionais e de valores e conceitos. Sim, até eles mudam… Mesmo os mais antigos, aqueles de berço.

É, eu poderia te falar de muitas coisas, mas você ia perder todas as descobertas. E, sem elas, eu não sei quem eu seria hoje. Talvez essa carta nem fosse existir.

Se tem algo que posso reforçar, Eu, é: vai passar. Respire fundo. Eu sou a prova de que nós conseguimos superar tudo o que, até agora, enfrentamos. Eu tô aqui, te esperando, dez anos depois… E prometo ficar aqui. Em mim (ou seja, em você), dá pra confiar.

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