A casa está tão fria. O ar gelado sai em forma de fumaça da minha boca. Tomei vinho para esquentar e isso me deixou vulnerável a cometer erros. O celular se torna uma porta de emergência para meus pensamentos. O meu medo se dilui no etílico. A insegurança desceu pela garganta junto com a terceira taça do Malbec.

Eu sempre quero te ligar quando bebo. Te mandar convites via mensagens. Eu perco o sentido, a razão, a lógica. A vontade de ter você emerge com toda força e eu luto para controlar isso, mas é sempre uma batalha perdida.

Essa noite, essa fria madrugada, não é diferente. Quando percebo, o sinal de chamada já está soando.

– Alô?

Sua voz não é de sono. São 2h da manhã. O que você faz acordado? Está com alguém? Está com ela?

– Marcelo, sou eu.
– Jô? Você tá bem?
– Sim, eu só… Só queria falar com você. Te ver. Vem aqui?
– Você sabe que hoje eu não posso.
– Você está com..
– Sim. 
– Ah… Mas, dá um jeito. Você sempre faz isso. Por que hoje não dá?
– Porque não.

Você começou a sussurrar. Ela estava por perto e não podia saber que você falava com outra ao telefone.

– Linda, hoje não dá. Me espera amanhã, tá? Depois do trabalho eu passo aí.

Isso foi um golpe quase fatal. Não quero “amanhã”. Estou ligando agora. Será que você não percebe a minha urgência?

– Não! – gritei. – Que merda!… Por que é sempre quando você quer? Por que, pelo menos uma vez, não pode ser como e quando eu quero?

Eu estava aos berros e aos prantos. Era mais uma das minhas cenas.

– Você está bêbada?
– Não te interessa.
– Jô? – Você usou aquele tom repressivo que não me permite mentir.
– Sim.
– Quanto você bebeu?
– Duas garrafas de vinho.
– Então você vai parar de beber agora, vai tomar um banho e vai dormir. Amanhã conversamos.

Não respondi.

– Jô? Amanhã, ok?
– Você não vem mesmo?
– Já disse que não posso…

Desligo.

Não quero me despedir, quero você aqui comigo. Ando de um lado para outro, desolada, imaginando você com ela. Grito sozinha no apartamento. Urro de raiva, de solidão. Me perco em tristeza. Nada acalma. Nada amansa essa fera que você despertou. Existe anestesia para esse tipo de dor?

Alguns minutos depois, mais calma, te mando a mensagem:

– Estou bêbada e encontrei um frasco de Valium. Vem… Ou eu morro.

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