Eles ainda estavam deitados sob o lençol quando ela começou a chorar calada. Ele não viu – até porque ela jamais permitiria. As lágrimas escorriam silenciosas e em câmera lenta até atingirem o travesseiro. Ela teve o cuidado de sair do peito dele antes que o choro secreto o molhasse.

Aquela tristeza estava presa na garganta já fazia tempo. Mas naquela noite ela se viu obrigada a libertar o que estava contido. Os sentimentos não deixaram outra opção.

Ele estava falando algo, mas ela não conseguia prestar atenção. Estava mergulhada nos pensamentos agressivos e na culpa que estar com ele a faziam pensar e sentir.

Logicamente falando, estar ali era humilhante. Ela rastejava perante e para ele. Bastava um comando e ela obedecia. Bastava uma mensagem e ela saía de onde estivesse para encontrá-lo. Ela chegou a confundir com amor, mas era outra coisa. A carência a fez se apegar à ele e a fez acreditar que tinham algo bonito – ou que pudesse vir a ser.

– Preciso ir. – Disse, com tremor imperceptível na voz.
– Mas já? Ainda é cedo.
– Tenho reunião amanhã de manhã… – mentiu.

Ele fez um muxoxo mas concordou.

Juntaram as roupas espalhadas pelo quarto, se vestiram. Ele a acompanhou até a porta do carro e deu um beijo de despedida sem sentimento. Para ela, isso era pior que beber veneno. A droga viciante. O que a destruía, mas sempre a fazia voltar por mais, na esperança de que, de repente, algo pudesse mudar. Mas não mudava.

Foi para casa em total devastação. Queria dormir, mas só conseguia chorar o acúmulo de dor das últimas semanas. Encharcou o travesseiro e deixou o rímel escorrer até não sobrar mais nada. E então o choro cessou, provavelmente porque atingira um estágio inicial de sequidão.

Foi descobrir que horas eram no celular e só então viu o ícone de mensagem recebida. Era dele. “Eu adoro estar com você, mas hoje você parecia meio distante. Está tudo bem? Espero que sim. Se cuida, linda”. Não queria se cuidar. Queria que ele a cuidasse. Queria aquele cuidado que não temos como oferecer a nós mesmos.

Desligou o celular e acabou esquecendo de ver o relógio. Não chorou mais. Simplesmente dormiu, embalada no pensamento “Não queria me apaixonar por você”. No apartamento acima, um violão tocava triste, criando a melodia exata para aqueles dizeres.

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